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As Bahias e a Cozinha Mineira

Popular

  1. 1.
    Uma Canção pra Você - Jaqueta Amarela
    5:160:30
  2. 2.
    Apologia às Virgens Mães
    6:560:30
  3. 3.
    A Isca
    3:410:30
  4. 4.
    Fumaça
    5:460:30
  5. 5.
    Um Doido Caso
    3:060:30
"Um caso gato vira-lata, cachorro medonho, brincou com meus sonhos, depois voou”. A
frase que abre o segundo disco da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, Bixa, logo aponta o
caminho tomado pela trupe liderada por Assucena Assucena, Raquel Virgínia e Rafael Acerbi: o
reino das fábulas, das metáforas e da imaginação. No lugar de princesas, príncipes e bruxas más,
animais de toda a fauna se reúnem em situações cotidianas e aparentemente banais. Ao invés de
“era uma vez…”, está o tempo presente, próprio da linguagem pop, bosque desbravado nas dez
faixas que compõem o disco.
Começando pelo aspecto musical, é possível dizer que a linguagem pop, em Bixa, é
desenvolvida na sua forma mais genuína. Aqui não se trata de um pop feito a partir de
fórmulas prontas ou da repetição de cânones internacionais. O pop de As Bahias e a
Cozinha Mineira vai fundo na essência do gênero: é um pop inventivo e autoral. Do
reggae em “Mix" ao bolero em “A isca”, a todo instante são exploradas diferentes
construções musicais para dar conta do universo que se desenha a partir de motivos e
temas do disco. Nesse sentido, as contribuições do produtor Daniel GanjaMan e do
baixista Marcelo Cabral, que têm atuado também ao lado de artistas como Criolo e Elza
Soares, enriquecem e trazem uma estética nova ao refinamento musical que tem sido,
desde o primeiro disco, uma marca da banda, composta ainda por Carlos Eduardo
Samuel (teclado), Danilo Moura (percussão), Vitor Coimbra (bateria) e Rob Ashttonfen
(baixo).
Por sua vez, as letras, que, no processo de produção, foram o ponto de partida
para a concepção do trabalho, exploram a sonoridade de fonemas, rimas e divisões
silábicas para desenvolver a dicção pop que convida à dança e à adesão do ouvinte.
Embora sejam construções discursivas complexas, Assucena Assucena e Raquel Virgínia
orquestram com maestria os recursos certos para que, na direção contrária, as canções
sejam de fácil assimilação. A aliteração em "dois pica-paus se amando no pico de um pau-
brasil”, de “Pica-Pau” (Assucena Assucena) e a assonância em “urubu fez festa, urubu dançou no
escuro”, de “Urubu coruja, coruja urubu” (Raquel Virgínia), evidenciam que o pop, embora seja
voltado à repetição, pode também ter um alto grau de elaboração poética - elaboração essa que já
é uma assinatura das compositoras, desde o disco de estreia, Mulher (2015).
Na perspectiva das narrativas ficcionais, Assucena Assucena e Raquel Virgínia nos
mostram que sabem contar boas histórias. A construção cênica de “Dama da Night” ("no
bueiro abaixo correm os ratos, no puleiro acima cruzam as pombas”) e a sequência
cubista à la Guernica de “Drama" (“uau, fantástico tudo explosivo, esse hino de tiros e bombas
que cantam, soam sinos de Catedral”) levam os ouvintes a cenários, cenas e tramas sem par. Na
corda bamba da ficção e da realidade, as composições friccionam os mundos possíveis e
imagináveis e abrem uma miríade de sonhos e fabulações. Talvez devido a esse alto grau de
inventividade em Bixa, o gênero pop, igualmente criativo, tenha soado tão certo e tão condizente
ao que a banda nos apresenta nas dez faixas.
Embora se voltem ao agora, tempo lógico do pop, As Bahias e a Cozinha Mineira
reverencia, sem saudosismo, o passado e dialoga com a herança da música brasileira. Passeando
por entre a leveza bossanovística, presente em “O pato” (Jaime Silva/Neuza Teixeira), eternizada
por João Gilberto, e as áridas e felinas imagens de “Carcará” (José Cândido/João do Vale) e
“Tigresa” (Caetano Veloso), as compositoras se embrenham na mata brasileira em canções como
“Pica Pau”, “Urubu Coruja, Coruja Urubu" e “Dama da night”. De Caetano Veloso, para quem,
inclusive, o pop e o tropicalismo se confundem, vem uma das principais inspirações para o disco.
Aos 40 anos do disco Bicho, de Caetano, é possível estabelecer um diálogo que vai muito
além da similaridade entre os títulos (Bicho e Bixa). Assim como o tropicalista que, ao se voltar à
cultura iorubá, explorou uma cosmogonia onde os seres humanos e os animais comunham uma só
energia, Raquel Virgínia e Assucena Assucena percorrem os dois lados de uma só esfera, a
humanização e a animalização, para mostrar o que há de animalesco no humano e o que pode ser
enxergado enquanto narrativa no animal. De um lado, religam nossas raízes à natureza. Do outro,
exercem o livre exercício da fabulação para metaforizar, ou seja, falar com outras palavras o que
muitas vezes pode nos ser caro, como o amor, o desejo e o drama. Nos poucos momentos em que
os bichos não entram em cena, há a contemplação da união entre todas as coisas. Em “Universo”
(Raquel Virgínia), a voz de Raquel Virgínia arranha os limites do infinito para estabelecer a fusão
oceano-corpo, céu da boca-céu, Terra-eu. Seguindo o mesmo movimento entre o todo e o detalhe,
Assucena Assucena, em “Tendão de Aquiles” (Assucena Assucena), vai do vasto mundo ao
particular calo e ao individual calcanhar para apontar os pontos fracos de uma paixão.
Indo à instância mais conceitual do disco, podemos refletir, certamente, que o nome Bixa,
ao surgir após Mulher, título do disco de estreia da banda, pode, à primeira vista, induzir à leitura
de uma transgressão à binaridade de gênero (homem-mulher). Contudo, a subversão,
primeiramente, se encontra justamente no emprego do termo bixa como um termo
universalizador do reino animal, que é, via de regra, escrito com a marcação do gênero masculino
(bixa versus bicho). Em segundo lugar, ao escrever o termo com x, em vez do usual ch, As Bahias e
a Cozinha Mineira pixa o muro e deixa sua marca nas paredes dos códigos normalizantes e
moralizadores que não somente estão inscritos nos corpos como também se impregnam nas
convenções linguísticas.
Ao expor uma fauna rica em cores e detalhes, onde os bichos dançam, pululam e
até mesmo podem se amar, Bixa se torna uma celebração da pluralidade em todas as
suas dimensões - pluralidade que, vale destacar, tem dado sentido à geração de artistas
igualmente desviantes às convenções de gênero e sexualidade que nos últimos tempos
têm constituído uma cena vasta e rica na música popular brasileira. Embora o clima
festivo e o esforço de imaginação possam aparentemente destoar dos sombrios tempos
pelos quais o Brasil passa, a banda As Bahias e a Cozinha Mineira promove um exercício
de resistência ao cultivar, nutrir e proteger a subjetividade coletiva frente ao atachante
massacre social, psíquico e midiático tão real e tão devastador.

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